Em novo disco, Eva explora a transmutação feminina
“Ritual” tem produção de Amanda Magalhães, participação de Samuel Samuca e mais
Foi durante a pandemia, que a paulista Eva entrou em seu “Casulo Borboleta”, enfrentou seus maiores medos e se dedicou de vez à música. Anos atrás a artista descobriu um diagnóstico de fibromialgia, que a fez rever a relação que tinha com a dança. Durante o período difícil, estudou composição online e foi instigada a escrever uma canção que refletisse sobre “um dia você vai ter que cuspir todos os sapos que engoliu”, nascia “Ritual”, música que dá nome ao seu primeiro disco solo, que sai em parceria com o selo Boia Fria Produções, tem as estreladas produções de Amanda Magalhães, Dudu Rezende (Mari Jasca) e Marcos Maurício (Baco Exu do Blues), além das participações especiais de Samuel Samuca e Zé Nigro.
“’Ritual’ foi a primeira composição – das 9 que fazem parte do álbum – e surgiu no período do meu diagnóstico, logo após uma separação muito dolorosa de um relacionamento amoroso. Nessa época perdi cerca de 11 kg (chegando a pesar 41kg) e me afundei. Para aliviar o peso, precisei recorrer a formas instintivas e simbólicas, entre elas escrever cartas que nunca foram enviadas ao destinatário, botando pra fora tudo o que eu queria dizer e não pude. Foi praticamente como fazer um enterro sem defunto. Escrevia também num papel todas as coisas que eu não queria mais e queimava na chama de uma vela; criei um altar com uma foto minha criança e a da minha mãe pra me lembrar que eu nunca estive só”, pondera a artista.
Foi necessário chegar ao fundo do poço, para que Eva se lembrasse de quem era e entender o que não cabia mais, seja nas relações com outras pessoas, como também na relação com ela mesma. O álbum então percorre este caminho, de uma mulher ativa em busca de seu poder próprio, passando por temáticas voltadas ao amor romântico e indo a um lugar mais íntimo e de auto pertencimento. O disco leva este nome, porque “ritual é algo feito com fé, disciplina, trabalho, devoção e sangue nos olhos”. É algo que exige preparo, presença e constância. É algo que transforma, que amplia, que quebra com a ordem estabelecida”.
Virginiana, organização é seu nome
Disciplina que é algo que com certeza pode ser considerado seu segundo nome. Quando decidiu deixar a dança, estudava jornalismo. Tudo começou quando foi chamada no palco para dar uma palhinha num clube de jazz em que trabalhava e sentiu a energia do palco. Como uma boa virginiana, ao invés de largar tudo, terminou o curso e foi atrás de uma bolsa de estudo. Cursou “Canto Popular” no Conservatório EMESP Tom Jobim, uma das mais prestigiadas escolas de música do país e daí, não parou mais.
Entre a faculdade e o trabalho, equilibrava as contas se apresentando no metrô de São Paulo. Integrou espetáculos musicais e cênicos como “Cabaré 3 Vinténs”, “Circo Jazz”, “Forrobodó” e “Retirantes”, trabalhos que reforçam sua atuação híbrida entre música, cena e corpo. E foi investigando discos que gostava que encontrou Amanda Magalhães.
“Conheci a Amandinha escutando, por acaso, seu disco ‘Maré de Cheiro’. Fiquei muito atraída pela produção musical desse trabalho – principalmente depois de saber que ela era a responsável. Como nessa época eu já estava com a pretensão de fazer um disco, peguei o contato dela via redes sociais e mandei uma mensagem. Tive a grata surpresa de ela me retornar e se interessar em ouvir minhas canções. Marcamos um encontro em seu estúdio e desde o primeiro momento tivemos muita química – duas virginianas juntas. Foi graças a ela que esse trabalho se iniciou e o tempo que dividimos juntas foi muito especial. Ela é sem sombra de dúvida uma das pessoas mais generosas que conheci”, revela a artista.
E são as mulheres que realmente tocaram o coração de Eva, uma de suas maiores inspirações é a artista e um dia professora, Fabiana Cozza. Na hora de citar as influências para o álbum, não tem dúvida, cita uma série delas: Elis Regina, Gal Costa, Angela Ro Ro, Liniker, Marina Sena, Catto e Marina Lima. Durante o processo do álbum, também foi importante para Eva se debruçar sobre a histórias das mulheres de sua família, o que fez com que também se aproximasse muito de sua mãe.
“Descobri que eu e minha mãe partilhamos de feridas e carências muito parecidas. Houve uma frase que minha mãe me disse e que norteou grande parte desse processo: ‘eu me realizo através de você’. Essa frase me impactou tanto, que senti isso não como um peso ou como uma necessidade de suprir expectativas, mas sim como uma honra, de saber que a minha trajetória poderia emancipar e trazer realização pessoal também pra mulheres que vieram antes de mim e que nem estão mais nesse plano. Esse sentimento foi tão forte que toda vez que me sentia só, lembrava dessas mulheres e do que minha mãe me disse”, explica Eva.
Mas nem só de mulheres se fez este álbum, são mais de 20 músicos na ficha técnica e um dos nomes que se sobressai é o do bailante Samuel Samuca, vocalista da banda Samuca e a Selva, que conheceu logo após um show em Jundiaí e está na faixa “Amor Selvagem”, um carimbó ousado que fala sobre ir atrás de quem se quer com desejo, libido e sem rodeios. E o artista, produtor e engenheiro de som Zé Nigro, que foi o responsável por grande parte das gravações das músicas de “Ritual” no Estúdio Navegantes.
“Desde o primeiro momento fiquei atraída pelo calor e malemolência do Samuca no palco. Compus ‘Amor Selvagem’ inspirada em ‘Flores Raras’ do Samuca e a Selva e não faria sentido chamar outra pessoa pra cantá-la que não ele. Ele ouviu a canção e aceitou de imediato. Zé Nigro eu conheci ouvindo o disco ‘Morrendo de Prazer’ da Malu Magri. Achei um disco potente, elegante e fui novamente caçar na ficha técnica quem era o produtor. Descobri que ele era um monstrão dentro da música, não só como produtor, mas também como engenheiro de som, e quis gravar grande parte do disco no estúdio dele. Durante as gravações criamos uma relação muito gostosa e sinérgica”, comenta a artista.
Além das músicas, no meio do álbum, Eva insere uma poesia, “Azul”, em que explora o sentimento de ingenuidade que ainda habita seu corpo e recita: “Eu olhava o céu esperando que ele tivesse algo a me dizer/Inventava o amor a cada semana/Não sabia assobiar, nem piscar com um olho só/Eu saltava e batia asas esperando voar/Em dias de chuva, eu achava que o mundo acabaria/Eu achava que as pessoas de olhos azuis viam o mundo em azul”.
Já em “Tigresa”, não aquela de unhas negras, mas com certeza aquela que anseia a emancipação e criação de outras realidades mais libertadoras e justa para as mulheres, Eva sonha com a força feminina:
“Essa canção nasce de um sonho que tive: nele eu virava um quadrúpede selvagem correndo pela cidade após matar alguém que queria me ferir. Nele eu acesso minha força mais instintiva pra sobreviver e me reconstruir. A tigresa nasce das minhas próprias feridas. Entre sonho e realidade, eu viro bicho pra atravessar a noite, enfrentar o medo e devolver ao mundo a violência que um dia me atravessou. Aqui, não tem delicadeza: tem corpo, impulso e reação. Ao longo da faixa, eu também desmonto uma esperança: a de viver o amor romântico. Entendo que o amor não vem de fora: ele é força selvagem, é presença, é algo que já habita em mim. É o encerramento do disco e um momento de libertação. Quando eu deixo de esperar e passo a existir com força própria”, finaliza.
“Ritual” tem 9 canções, sendo delas uma poesia, todas de autoria da jundiaiense Eva, sai em parceria com o selo Boia Fria Produções, tem produção de Amanda Magalhães, Dudu Rezende e Marcos Maurício. O disco passa pelo samba, soul music, ijexá, carimbó e outros ritmos latinos, como o candombe e reggaeton. Mescla de MPB com Pop. Participações especiais de Samuel Samuca e Zé Nigro, visualizers e fotos de renomado fotógrafo Renato Stockler, figurino de Ellias Kaleb e contou com a participação de mais de 20 músicos em sua produção. Ouça aqui.
Mais informações:
https://www.instagram.com/evajuliana____/
Com informações: Favorite Assessoria