setembro 12, 2026
Há shows que terminam quando as luzes se acendem. Outros permanecem na memória por algum tempo. “Cabaré: O Último Encontro”, apresentado pelos renomados Leonardo e a dupla Bruno & Marrone na Mercado Livre Arena Pacaembu, é daqueles espetáculos que continuam ecoando mesmo depois que o último acorde termina.
Em uma noite de casa cheia, o encontro entre Leonardo, Bruno e Marrone é mais como uma grande celebração de uma época, de um repertório e, sobretudo, de uma maneira muito particular de viver a música sertaneja. A despedida, nesse caso, não foi marcada pelo silêncio ou pela melancolia excessiva, mas pela festa — como se o público soubesse que aquele era o momento de cantar mais alto, rir mais e aproveitar cada modão.
Um cabaré a céu aberto
A produção acertou ao transformar a arena em uma espécie de gigantesca mesa de bar. Painéis de LED, iluminação em tons quentes e uma cenografia grandiosa ajudaram a criar o ambiente de cabaré que dá identidade ao projeto.
Mas o cenário, por mais elaborado que fosse, não roubou a cena. O verdadeiro espetáculo estava na plateia. De “Boate Azul” a “Telefone Mudo”, os espectadores não se comportavam apenas como público: eram parte ativa da apresentação. Cada refrão parecia pertencer a todos.
Essa é talvez a maior força de “Cabaré”: o repertório não exige apresentação. São músicas incorporadas à memória afetiva de várias gerações.
Leonardo: o dono da roda
Leonardo foi, naturalmente, o grande articulador da noite. Com a experiência de quem conhece intimamente o palco popular brasileiro, o cantor assumiu a função de mestre de cerimônias, costurando as músicas com humor, histórias e provocações à plateia.
Sua performance não depende de virtuosismo vocal. O que Leonardo oferece é personalidade. Ele sabe ocupar o palco, conversar com o público e transformar eventuais intervalos entre as canções em momentos de entretenimento.
Quando surgiram clássicos como “Pense em Mim”, “Entre Tapas e Beijos” e “Rumo a Goiânia”, entretanto, o humor deu lugar à memória. O repertório da carreira solo e da trajetória com Leandro trouxe uma camada emocional particularmente forte à apresentação.
Bruno & Marrone: voz e equilíbrio
Se Leonardo comandava a festa, Bruno & Marrone eram responsáveis por boa parte da musculatura musical do espetáculo.
Bruno mostrou por que sua voz se tornou uma das marcas do sertanejo romântico. A interpretação carregada de emoção encontrou terreno fértil em músicas como “Choram as Rosas” e, principalmente, “Dormi na Praça”, que recebeu uma resposta explosiva da arena.
Marrone desempenhou seu papel com discrição e eficiência. Suas segundas vozes deram sustentação às interpretações e ajudaram a preservar uma característica fundamental da dupla: o equilíbrio entre potência e harmonia.
A química entre os dois continua sendo um dos pontos altos do espetáculo, especialmente quando o rigor musical se mistura à irreverência característica da dupla.
O repertório é o grande protagonista
É impossível assistir a “Cabaré: O Último Encontro” sem perceber que o verdadeiro protagonista talvez seja o próprio repertório.
“Seu Amor Ainda É Tudo”, “Ainda Ontem Chorei de Saudade”, “Boate Azul” e “Telefone Mudo” não funcionam apenas como sucessos. São documentos de uma tradição musical que transformou sofrimento amoroso, noites de bar, separações e saudade em linguagem popular.
O espetáculo entende isso e não tenta reinventar essas canções. Ao contrário: aposta naquilo que já funciona. É uma escolha coerente para uma turnê de despedida.
E talvez seja justamente aí que esteja sua maior virtude — e também sua pequena limitação. Quem espera novidades ou experimentações musicais encontrará pouco. O show não pretende romper fronteiras. Seu objetivo é celebrar uma identidade já estabelecida.
A despedida que prefere celebrar
Existe uma contradição interessante no título “O Último Encontro”. A ideia de fim está presente durante toda a noite, mas o espetáculo raramente se entrega à tristeza.
A despedida acontece por meio do excesso: mais músicas, mais histórias, mais refrões, mais gargalhadas. É como se os artistas soubessem que, diante de um projeto tão associado à celebração da vida boêmia, o melhor modo de dizer adeus fosse levantar um último copo.
Na Arena Pacaembu, o público respondeu à altura. Cantou, dançou, riu e, em alguns momentos, simplesmente se deixou levar pela memória.
O Último Brinde
“Cabaré: O Último Encontro” é um espetáculo que transforma a despedida em uma grande celebração da música, da amizade e da história construída por esses artistas ao longo dos anos. Leonardo, Bruno & Marrone entregam aquilo que o público foi buscar: grandes sucessos, vozes reconhecíveis, humor, emoção e uma atmosfera de confraternização.
Musicalmente, não é um espetáculo interessado em surpreender. É um espetáculo interessado em relembrar. E, diante da história construída pelo projeto, essa escolha faz todo sentido.
Ao final, fica a sensação de que o último brinde não foi apenas aos artistas, mas a uma forma de fazer e consumir música sertaneja — aquela em que a dor vira refrão, a mesa de bar vira palco e uma arena inteira pode, por algumas horas, parecer uma velha roda de amigos.
Fotos: Gabriel Luiz Ramos / Parceiro Boomerang Music
Agradecimentos: Assessoria de Imprensa Opus Entretenimento