Entrevista exclusiva com a dupla Kleiton e Kledir

Conversamos recentemente com uma das maiores duplas da Música Popular Brasileira, os irmãos Kleiton & Kledir, que estão comemorando 40 anos de carreira.

 

Um dia antes (22/10/2020), do relançamento do álbum Kleiton & Kledir “En Espanõl”, em todas as plataformas digitais, gentilmente os artistas conversaram conosco, em um bate papo sobre o novo álbum, as novidades da dupla, os encontros e sobre a comemoração dos 40 anos de carreira dos artistas.

 

Confira a abaixo, a entrevista na integra:

 

Boomerang Music – Gostaria que vocês falassem sobre a importância do relançamento desse álbum inédito “EN Espanhol”, que originalmente saiu em 1985 apenas na Argentina, se houve algum tratamento musical e porque ele demorou tanto para ser lançado no digital.

 

Kleiton Ramil – Realizar esse sonho que nós tínhamos há muito tempo era bem complicado, porque na época a gravadora não teve interesse em lançar e gravar esse álbum em espanhol no Brasil.

 

Foi feito um esforço grande para esse trabalho, nós temos cidadania espanhola, nosso avô é espanhol, nosso pai nasceu em Montevideo no Uruguai e nós nascemos na fronteira, muito próximo do Uruguai, então a língua espanhola, digamos que é a nossa segunda língua, então estava caindo de maduro gravar esse trabalho.

 

Para esse relançamento, foi remasterizado o projeto e será lançado apenas digitalmente, houveram dois motivos, um deles foi aproveitar essa questão da pandemia, que não podemos estarmos no palco, fazer shows em teatros e também aproveitando que estamos comemorando 40 anos de carreira, pra disponibilizar materiais para o nosso público.  Foi relançado o DVD “Kleiton e Kledir Ao Vivo”, pela gravadora Biscoito Fino, foi lançado há pouco a música inédita “Paz e Amor”, com a participação da MPB4 e agora estamos trabalhando no clipe em espanhol com participações da Mercedes Sosa e León Gieco, um trabalho que sempre a gente teve muito orgulho, mas nunca surgido a oportunidade do relançamento.

 

Boomerang Music – Sobre o relançamento do álbum “En Espanõl”, vocês pretendem fazer incluir essas versões no show de vocês ou mesmo trabalhar essas canções em outros países?

 

Kledir Ramil – A ideia inicial como o Kleiton falou sempre foi fazer o lançamento do álbum em vários países e a gente fazer uma turnê com shows por esses países. Na época, não havia interesse das gravadoras de maneira geral no mercado latino de lançar artistas brasileiros e nós tínhamos outro pensamento, nós tínhamos uma visão contrária em relação a isso, até porque nós tínhamos muitos contatos através da fronteira sempre fomos no pensamento “tá caindo de maduro, isso vai acontecer”. Mas a gravadora meio que cumpriu o contrato conosco, só lançou esse álbum na Argentina e esse projeto que ficou adormecido, no ano seguinte depois de a gente ter lançado o álbum em LP apenas na Argentina, os Paralamas do Sucesso vão pra Buenos Aires e estouram de maneira fantástica e foi muito legal porque estava provado o que nós estávamos falando que ia acontecer. E os Paralamas fez um enorme sucesso não só na Argentina, como em toda a América Latina inteira, foi muito legal tudo isso e a nossa ideia se preservou, estava correndo. Agora tantos anos depois, vontade nós temos de montar um show, tentar fazer uma turnê por esses lugares, se a gente vai conseguir não sei, é difícil, nesse momento a gente não consegue fazer show em lugar nenhum, então vamos ter que esperar , a gente não sabe quando vai sair uma vacina para que todo mundo se sinta totalmente seguro pra sair pra rua de novo, quem sabe. Agora o que está conseguindo é lançar esse disco em espanhol para o mundo todo, são umas das vantagens do digital, amanhã sai no Brasil e em todo lugar, nossos amigos do Japão vão poder escutar amanhã (risos).

 

Kleiton – Já que não podemos ir para o palco, fazer shows ao vivo, a gente está fazendo alguns projetos como esse oferecendo trabalhos que sejam possíveis a oferecer. Em relação a dar continuidade a isso, eu adoraria, nos EUA tem um mercado espanhol gigante, que cresce muito, também tem a Espanha, o qual temos muitos contatos, então o ideal seria se pudesse potencializar isso e levar esse projeto pro exterior, mas como o Kledir falou, é tudo muito difícil, teria que haver uma gravadora de lá interessada em relançar isso ai, seria o mais correto, mas quem sabe. Ou mesmo incluir como boa sugestão que foi dada, talvez em um próximo show que a gente faça presencial, incluirmos músicas em espanhol. Temos o espetáculo Kleiton e Kledir 40 anos, que foi cancelado por causa da pandemia, íamos viajar o Brasil com esse espetáculo, tem também o espetáculo com a orquestra de Porto Alegre, a Ospa também adiado pro ano que vem, biografia da dupla, filme da nossa vida, shows com a banda Nenhum de Nós, muitas coisas acontecendo que tivemos que adiar, tomara que possamos incluir algumas músicas em espanhol no show de 40 anos da dupla.

A ideia nesse show é mostrar um pouco de tudo que fizemos nesses 40 anos, inclusive antes quando ainda estávamos na banda Almôndegas, que também tiveram canções eternizadas no brasil.

 

Boomerang Music – Sobre as participações especiais nesse álbum, o que vocês lembram da época das gravações e os encontros, como vocês conheceram eles?

 

Kleiton Ramil – A Mercedes Sosa é uma pessoa fundamental em nossas vidas, e também em nossa formação musical. Quando morávamos em Porto Alegre, éramos amadores ainda tínhamos um grupo enorme de amigos e amigas, nós virávamos a noite cantando e o repertório da Mercedes sempre estava presente. Naturalmente, se curtia música popular brasileira, música internacional e a música latino-americana sempre esteve presente. Depois tivemos o privilégio de conhecermos a Mercedes em 1981, no Festival de Varadero, um festival que aconteceu em Cuba. Fizemos shows em Varadero e Havana, grandes nomes participaram desse festival, como Jimmy Cliff, entre outras grandes artistas. Nós estávamos juntos com uma equipe que tinha ido do Brasil a convite do Chico Buarque. O MPB4 estava junto, Nara Leão, João Bosco, João do Vale. Então foi lá que conhecemos a Mercedes, nós sempre fomos apaixonados por ela, com sua obra e sua voz incrível dela que foi considerada uma das maiores vozes de todos os tempos da América Latina, talvez do mundo e ela sempre foi muita carinhosa conosco.

Em um belo dia quando estávamos pensando em fazer o disco em espanhol ela foi a primeira artista a se pensar em convidar. Fui até Buenos Aires, conversei com ela, cantei algumas músicas do nosso repertório. A partir daí que ela regravou o Vira Virou, grande sucesso do MPB4 no Brasil e tanto ela aceitou o nosso convite para participar do nosso álbum, como nos convidou também a participar do disco dela.

Sobre o Léon, o Kledir pode nos falar mais sobre a participação dele.

 

Kledir Ramil – O Léon foi uma sugestão do Bernardo Bergeret, que é o produtor do disco junto conosco, ele é um argentino e tem tudo a ver. O Léon é um artista com a mesma faixa etária nossa e mais ou menos com a mesma base cultural. O Léon faz música a partir das coisas mais tradicionais da Argentina,  somando com todo esse universo pop e rock internacional e ele achou que tinha tudo a ver com o nosso trabalho. E isso gerou um encontro maravilhoso. O Léon possui uma carreira forte na América Latina inteira e até hoje reúne trabalhos magníficos.

 

Kleiton Ramil – Ainda falando sobre a continuidade do projeto, podemos falar também da capa do álbum é uma criação do artista plástico Nelson Felix, as fotos foram feitas por Frederico Mendes, que fez o registro com a Mercedes, o Léon, grandes amigos e pessoas importantes do mundo.

E nós tivemos esse privilégio, dois guris que nasceram lá no final, quase caindo pra fora do Brasil na fronteira, hoje em dia moramos no Rio de Janeiro há muitos anos, temos essa carreira longeva, estamos comemorando 40 anos de dupla e o Kledir conseguiu juntamente nessa conversa com a gravadora Universal trazer o relançamento desse projeto em espanhol.

 

Boomerang Music – Recentemente vocês também lançaram a música “Paz e Amor”, em parceria com a MPB4, uma canção que muito boa, de quem partiu a ideia desse encontro musical?

 

Kledir – Já temos muitas histórias juntas com o MPB4 e que tomara que venham muitos outros projetos com eles. No inicio da dupla, o MPB4 nos apresentou para o brasil inteiro, nosso primeiro disco eles gravaram o “Vira Virou”, transformaram em um sucesso enorme e nos levaram junto nos apresentando nos shows durante 1 ano e meio, viajamos o Brasil inteiro, e eles sempre foram muito carinhosos com a gente, então temos várias gravações com eles, participações em discos, shows e agora quando surgiu essa música, que fala de esperança, de justiça social, tudo a ver com o MPB4.

E que também é uma música que se presta pra vocal, se expressa para vozes cantando juntos, a gente convidou o MPB4, eles toparam, a música foi feita com muita dificuldade porque todo mundo gravando com o celular em casa, tecnicamente tudo muito difícil tanto o áudio como também as imagens pra se captar e mesmo com essa dificuldade eu fiquei muito contente que foi o MPB4 veio contar conosco, porque além de toda uma trajetória que eles tem de aproximação conosco, tem uma trajetória de cantar sempre as justiça social, a posição política que eles tiveram não só nas canções, mas como também nas atitudes, na postura de vida, são pessoas extraordinárias e atuam em movimentos desde sempre, a gente participou com eles de vários movimentos de solidariedade nos anos 80 até os dias de hoje. Muito aprendizado com eles não só de música, mas como de atitudes que é o que essa música fala agora.

Tenho ouvido as pessoas falarem muito de mudança, “o mundo vai mudar, mas para o mundo para mudar tem que começar conosco, vamos embora arregaçar as mangas e vamos mudar?, o que você vai mudar na sua vida?”.

Porque o resultado que está aí é o resultado de uma grande rede que vai se realimentando que são os nossos hábitos pessoais e tudo isso a gente tem que parar para pensar.  A música busca e traz uma a reflexão, eu estou muito entusiasmado com muitos movimentos de solidariedade, a questão é que esse amor ao próximo ele tem que continuar quando tudo isso acabar, quando as coisas melhorarem, não é só a questão da pandemia, essa música não fala só dessa angústia nesse momento, mas também fala da situação que está o mundo, de como está o planeta, que está o nosso país, estamos vivendo uma era da ignorância, as pessoas acham que o mundo está errado porque os outros estão errados, espera um pouquinho, estamos todo mundo junto, alguma coisa que eu possa estar fazendo que esta realimentando essa cadeia de ignorância e descontroles que está o planeta, daqui a pouco não vai sobrar planeta, não adianta a gente correndo atrás de dinheiro o dia inteiro  e acabando com as coisas em nossa volta, acabando com os outros.

Enfim, o MPB4 sempre foi um grupo de resistência, desde os anos 60, são caras que estão há mais de 50 anos cantando e estejam conosco cantando isso, chamando, alertando, convidando as pessoas para abrirem as janelas e abrir o coração.

 

Boomerang Music – Vocês fizeram alguns shows em uma parceria de sucesso com a banda Nenhum de Nós, mas o show ainda não passou por diversas capitais, vocês pretendem retomar esse projeto ?

 

Kleiton – Vai rolar, vai rolar. A gente tem uma relação de longa data com a banda Nenhum de Nós, teve uma época que o Thedy  foi diretor de um selo em Porto Alegre que lançou nosso primeiro DVD, mas antes disse eles já tinham gravado músicas nossas. O Nenhum de Nós é uma banda de rock muito interessante porque eles também cultivam a questão do regionalismo, botam no som uma gaitinha, um acordeom, fazem uma farra regional no meio do rock, então eles fecham conosco total. A gente fez uma temporada de shows em Porto Alegre que foi super lotado em várias noites,  aconteceram muitas sessões extras, todas lotadas, foi um espetáculo que deixou as pessoas satisfeitas e nós, emocionados por poder dividir com artistas tão carinhosos e nos transmitiram uma imensa afinidade.

Esse espetáculo já tem muitas cidades marcadas, inicialmente no Sul, mas tomara que haja o interesse de produtores de várias partes do Brasil  e levem para o público assistir. Quando passar a pandemia, está em nossa pauta retomar esse espetáculo no ano que vem, tem várias cidades marcadas.

Além disso tem show com Orquestra que vai é um grande espetáculo, tem o nosso show de 40 anos, inclusive a gente faça um esforço, isso vai depender, não sabemos se ainda vai demorar sobre a questão do retorno aos palcos, talvez a gente coloca algumas coisas online para os nosso público, dando um panorâmica online da  carreira da dupla, mesmo que depois se monte uma coisa ao vivo, mais elaborado e caprichado.

 

Eu (Kleiton) e o Kledir, estamos em casa desde o início do ano, então queremos voltar, estamos morrendo de saudades do palco, mas nessa reta final ai, antes de chegar as vacinas que sejam sérias, vacina que mata gente não adianta, porque já teve um acidente que aconteceu ai. Então vamos aguardar com calma pessoal!

Na reta final, vamos usar a proteção, lavar as mãos com água e sabão, andar com o álcool gel. Vamos nos cuidar e cuidar das pessoas da nossa casa. Nós estamos sonhando em voltar o mais rápido possível, estamos ansiosos para voltarmos aos palcos.

 

Boomerang Music –  40 anos de carreira de Kleiton e Kledir, o que pode vir futuramente, um álbum de inéditas, algum projeto comemorativo, um DVD ao vivo?

 

Kleiton – Do jeito que o Kleiton produz, compulsivamente, talvez tenhamos que lançar um álbum triplo (risos), quando parar esse negócio todo.

Ontem, ele me mandou cinco músicas novas, eu disse “calma (risos)” pra botar letras. Ele faz as músicas, as melodias pra eu colocar as letras, eu envio as músicas o Kledir desenvolve as letras. Aqui, a capacidade de produção é muito grande, nós somos dois caras inquietos, com vontade de fazer planos. A princípio nossa ideia é celebrar com o show de 40 anos de dupla, isso inclui na celebração um álbum nessa comemoração, esse disco seria exatamente o registro do show ao vivo num show incrível, participações especiais.  Com certeza iremos fazer um registro atual de toda a nossa trajetória, que possa englobar os  momentos marcantes que vivemos. Mas também pode rolar um álbum de inéditas, porque a gente não para. Vamos aproveitar esse momento  pra pensar em tudo isso para chegar em breve com grandes novidades.

 

 

Entrevista por Marco Antonio V. Cunha / Revisão e colaboração:  Rosely Rodrigues

 

Agradecimentos especiais: Universal Music / Assessoria de Imprensa Fogo no Paiol / dupla Kleiton & Kledir